A origem de Jesus segundo a genealogia de Mateus

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Com o encerramento do ano litúrgico neste domingo (20), a Igreja proclama Cristo como Rei do Universo e Senhor do tempo e da história; no domingo seguinte (27), 1º Domingo do Advento começa a refletir a prece “Vem Senhor Jesus” de tal forma que esta, fixada dos lábios da comunidade orante, encontra seu sentido pleno na contemplação das duas vindas de Cristo; uma totalmente já consumada quando o verbo se fez carne e armou sua tenda (Shekinah) no meio dos homens e a segunda volta que chamamos de Parusia, esta volta em glória no fim dos tempos. Porém, ao comtemplar estas duas realidades nos deparamos com questões fundamentais que precisamos compreendê-las corretamente: Quem é Jesus? De onde Ele Veio?
Ao longo dos Evangelhos nos deparamos com cenas onde estas perguntas se repetem: No interrogatório de Jesus, Pilatos pergunta: “De onde és Tu?” (Jo 19,9); no episódio da cura do cego de nascença argumenta-se: “Sabemos que Deus falou a Moisés. Mas esse [Jesus] não sabemos de onde é!” (Jo 9 , 29), ou ainda na sinagoga em Nazaré quando Jesus interpretava as Escrituras, começou o alvoroço entre os que O ouviam e perguntavam entre si: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui entre nós?” (Mc 6,3)
Precisamente para responder estas perguntas é que os Evangelhos foram escritos. A pergunta sobre o “de onde” é Jesus questiona sua origem íntima e consequentemente sua natureza humana e divina. A sua diferença encontra-se em sua genealogia, sua origem. Os Evangelistas Mateus e Lucas nos trazem duas versões a cerca da genealogia de Jesus; O Evangelista Marcos não apresenta uma genealogia, pois este apresenta Cristo como servo, e servos não necessitam de genealogia¹, e o Evangelista João não faz preceder o seu evangelho de uma genealogia, contudo, apresenta no seu Prólogo a resposta à pergunta “de onde” Ele é. Neste momento vamos tentar à Luz do Evangelista Mateus, cujos escritos iremos meditar ao longo do próximo ciclo da liturgia (Ano A) a partir deste tempo do Advento prestes a iniciar, tentar fundamentar a questão sobre “de onde” é Jesus.
Para a Comunidade de Mateus, a genealogia de Cristo é apresentada como a abertura de todo o Evangelho, lançando já de inicio o olhar na perspectiva da origem de Jesus, sendo representada em 3 blocos de 14 gerações cada, indo de Abraão até o Rei Davi, depois de Salomão até o Exílio na Babilônia para assim chegar até o nascimento de Jesus.
Abraão representa o marco inicial da história que Deus quer escrever com o ser humano após a dispersão na Torre de Babel; Ele se apresenta como um homem simples, porém de grande fé, e através desta, se coloca como “peregrino” saindo de Ur dos Caldeus, rumo à terra prometida, trocando a estabilidade do presente pela incerteza do futuro, vivendo sob a promessa que mais tarde nos diz o autor da carta aos Hebreus: ele “espera a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus” (Heb11,10). Abraão espera o cumprimento dessa promessa não em si mesmo, mas em seu descendente “Por ele serão benditas todas as nações da terra.” (Gn 18, 18). Aqui começamos a enxergar que a história iniciada em Abraão atinge seu cume na figura de Jesus Cristo, pois é Ele quem mais tarde enviará seus discípulos como novos “peregrinos da fé” até os confins da terra abençoando, pregando a Mensagem de Deus e batizando todas as nações conforme nos mostra o final deste Evangelho.
Prosseguindo, encontramos a segunda figura, bem mais importante nesta genealogia: Davi. A este foi feita a promessa de um reino eterno: “O teu trono se estabelecerá para sempre” (2Sm 7,16). É partindo desta promessa que Mateus estrutura sua genealogia. São três blocos de catorze gerações, mostrando assim que a promessa feita a Davi caracteriza a ponte entre Abraão e Jesus. Poderíamos fortalecer tal estruturação se considerarmos que as letras hebraicas do nome Davi totalizam numericamente 14, confirmando dessa forma a estrutura apresentada por Mateus. “Com base nisso, poder-se-ia dizer que a genealogia com os seus três grupos de 14 gerações é um verdadeiro Evangelho de Cristo Rei: a história inteira aponta para Ele, cujo trono estará firme para sempre.”²
Ao longo da genealogia narrada por Mateus, encontramos quatro figuras femininas: Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias; estas são inseridas devido ao fato de serem pecadoras, para assim indicar que Cristo tomou sobre si os pecados da humanidade, justificando dessa forma sua missão terrena. Porém outra interpretação para a presença destas mulheres na genealogia de Mateus é o fato de que todas elas não são judias, enxertando assim na descendência de Jesus também os povos gentios a fim de compreender que Sua missão não é apenas destinada aos judeus mas também aos povos pagãos. Esta mesma genealogia, mudando sua estrutura de escrita das descendências, termina fazendo referência à outra mulher: Maria; sendo ela genitora por obra do Espírito Santo, inaugura um novo tempo nesta linha genealógica; torna-se mãe de um Novo homem, fruto de uma nova criação; outro ponto importante é que Jesus adquire na figura de seu pai adotivo José, a pertença à tribo de Davi, mesmo que apenas para fins legalistas, de tal forma que não retira e nem reprime sua origem divina.

Sendo então gerado por Maria pela intervenção do Espírito Santo e recebendo a filiação humana na tribo de Israel (que é herdeira das promessas de Deus feitas à Abraão) através de José, Jesus atinge o pleno cumprimento das promessas de um reino eterno que Deus promete em Davi. Sendo Cristo verdadeiramente humano e verdadeiramente Deus, assume na história o papel de redentor do gênero humano, dando a ele um novo sentido existencial.
A partir do conhecimento da genealogia de Jesus no evangelho de Mateus, começamos a identificar pontos que nos ajudam a compreender e responder a pergunta inicial sobre “de onde” veio Jesus de Nazaré; ademais, através deste rápido mergulho na sua origem, devemos também nós refletir acerca da nossa própria origem. Perguntar-nos sobre nossa missão no mundo e o que estamos fazendo para cumpri-la perante a Deus e perante os homens.
Irmãos, nunca nos esqueçamos que, a nossa única e verdadeira genealogia descende da fé em Jesus que nos faz também nascer de Deus!
Glauber Inocêncio
Pastoral dos Coroinhas
Referências
1MANUAL POPULAR de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia – Norman Geisler – Thomas Howe.

2 (RATZINGER, A infância de Jesus, 2012, p. 15)

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